Bandido bom é bandido morto.

3/29/2018

 

 

Era comemoração do dia dos pais, e fui convidado para participar de um evento na UNIRE (Unidade de internação do Recanto das Emas). A MPC insiste em fazer um trabalho todo sábado lá, com jovens em medida socioedutativa, que no bom português – menores infratores. E nesse dia, o ministério SUPERAÇÃO preparou um banquete, os professores uma peça teatral bem legal, e alguns dos jovens expressariam seus sonhos através do rap. Era pra ser uma “festa” de pais e filhos juntos.

 

Era comemoração do dia dos pais, mas não parecia. A família foi convidada para o evento e obviamente, o pai era peça fundamental. Mas a maioria presente no evento eram mães, avós e namoradas com filho no colo. Um pai ou outro que estava lá, matando a saudade, sofrendo e sorrindo pelo pouco tempo para aproveitar.

 

Fiquei na porta de entrada cumprimentando cada um daqueles jovens. Estava tenso, confesso, mas tentei me manter firme. Imagina demonstrar medo pra esses caras? Estava apertando a mão de adolescentes que já haviam roubado, matado e feito o mal sem derramar uma lágrima de arrependimento. Por um momento, achei burrice ter aceitado o convite. “Isso não tem nada a ver comigo. Meu chamado é outro”, pensei.

 

Como de costume, fiquei ali refletindo enquanto a programação acontecia. Inevitavelmente, ao ver poucos pais presentes, tentei imaginar minha vida sem o meu. Ele que me instruíu, corrigiu, consolou e colocou limites. Ou talvez, a decepção que seria pra ele me ver naquela situação. Na humilhação que o faria passar ao me visitar, misturado com outros... bandidos. É... pensei isso. Na minha mente veio essa palavra.

 

Logo em seguida, sem que eu quisesse, me veio no coração: “Se na sua definição, bandido é quem rouba o que não lhe pertence, como te chamar quando toma o lugar que me deu na sua vida? Se bandido é quem prejudica o outro, o que dizer do seu egoísmo com seu próximo? Se bandido é um vacilão que escolheu errado, como te chamar quando toma decisões precipitadas e cheias de má intenção?”.

 

Paralisei. Foi um pensamento/resposta que eu não planejei. Um tapa na minha cara. Saí de fininho do local fingindo ir no banheiro. Enquanto andava, as cenas do bandidinho mal caráter que sou insistiam em me lembrar no hipócrita que estava sendo. Eu sei que parece exagero, mas é que só eu sei do quanto luto pra vencer isso em mim. Pra não viver no engano que vemos por aí, de gente que anuncia o evangelho, mas só quer se promover. É fácil estar com o microfone na mão, dar palestra para adolescentes e causar uma ótima aparência de cristão. É fácil ter discurso de humilde mas no fundo se achar mais preparado que o outro por que ele errou diferente. Difícil é se vigiar sempre, não ser guiado pelos próprios interesses, e viver o reino na totalidade. Difícil é matar o bandido que há em mim todos os dias, mesmo se meus pecados não forem expostos. Não importa, Ele sabe. E nesse caso, posso fingir liberdade pro mundo, mas se não houver arrependimento, escondo a prisão perpétua que há em mim.

Graças a Ele, a graça me alcançou e posso ser livre novamente.

 

Pois bem, nunca concordei com essa frase, mas agora fez sentido pra mim. Bandido bom, é bandido morto.

 

“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” Gálatas 2:20

 

 

 

 

 

 

Sabino Cordeiro Dourado Junior

Psicólogo de formação, palestrante por puro prazer na vocação, missionário por ostentação, e pseudo escritor nos momentos mais imprevistos. Casado com sua namorada Mariana Soares, e ansioso pra trocar fraldas de seus futuros filhos.

 

 

 

 

 

 

 

 

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November 26, 2018

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