Deus no cotidiano: O Jogo

7/20/2018

 

 

No meu último textoUm relacionamento capaz de durar a vida " toda comentei sobre como o relacionamento com Deus preenche toda nossa vida. Neste texto pretendo aproveitar o clima de Copa do Mundo e conversar sobre como isso acontece quando o assunto é jogos. Você gosta de jogar? Não, na verdade, talvez a pergunta mais apropriada seja: O que você gosta de jogar? Não consigo pensar em uma pessoa que não tenha interesse por nenhum tipo de jogo. Existem aqueles que preferem o mundo virtual no PC e nos consoles, outros preferem mais o mundo real, nas quadras ou nos tabuleiros. Há quem goste do vigor dos esportes que exigem mais do físico, alguns preferem jogos que vão testar sua mente seja na estratégia, seja na criatividade. Ainda há aqueles que preferem se aventurar em jogos que testam sua sorte, enfim... existe um enorme cardápio de jogos, sendo difícil imaginar alguém que não tenha contato ou interesse por algum, e ainda há aqueles que, mesmo que não pratiquem determinado esporte, o acompanham apaixonadamente.

 

                Mas será que existe neste universo quase infindável de jogos algo que os unifique? Algo que seja comum a todos eles? Algo que motive o ser humano a continuar a criar mais e mais jogos? Bem... sobre isso acho que vale a pena citar um vídeo : quando assisti já pensava em fazer este texto, mas o vídeo do Yago Martins apresenta as ideias do Rev. Emílio Garofalo sobre o futebol, as quais podem ser levadas a outros jogos e já estavam mais sistematizadas que as minhas próprias, confere lá. Voltando às perguntas: o homem continua a criar coisas, por ser imagem e semelhança daquele que é o criador de tudo. Deus continua criando através de nós, que atuamos no mundo como sub-criadores, trazendo à existência nossos próprios mundos com suas próprias regras. Seja nos jogos ou em outros ambientes da cultura, o homem é um ser criativo capaz de pensar mundos e regir sobre eles. A própria aptidão do homem para regular remete ao Éden quando, no mandato cultural, Deus ordena que o homem domine sobre todas as coisas.

 

                Não é difícil pensar como o relacionamento com Deus deve afetar nosso relacionamento com os jogos. Se os efeitos da queda podem ser evidenciados no consumo desmedido de jogos e de seus conteúdos, no stress de quem participa de um jogo, ou mesmo o assiste e desconta nos familiares e amigos, na falta de honestidade, no destrato com o oponente, então o fruto do espírito pode brilhar como uma luz em meio às trevas deste sub-mundo ao se portar de forma leal, ao se preocupar mais com pessoas que com resultados, em uma vida controlada onde os jogos são para relaxar, promover relacionamentos com o próximo e permitir melhor desempenho em outras áreas da vida. Percebendo este mundo dos jogos como sub-criação é mais fácil entender seu papel, e não usá-lo como refúgio do mundo real, da coisa verdadeira onde Deus nos criou para viver, conhecê-Lo e nos relacionar com Ele.

                Agora, como jogar pode me apresentar mais sobre Deus e sobre a vida neste mundo? Bom, a sub-criação - sendo uma parte e um reflexo da própria realidade criada por Deus - deve nos apresentar conceitos para uma boa vivência na realidade de forma geral. Eu, particularmente, sou alguém que gosta muito de jogar, consumindo em maior ou menor grau quase todos os tipos de produtos que este cardápio tem a oferecer. Na faculdade, peguei uma matéria optativa chamada Introdução ao Desenvolvimento de Jogos (IDJ), onde aprendemos um pouco sobre como programar jogos virtuais. Em IDJ a gente aprende que todo o jogo é caracterizado por um conjunto de regras: na verdade, tudo que se precisa para ter um jogo é um jogador e regras a serem seguidas. De fato existem inúmeros jogos onde se joga sozinho, Sudoku, por exemplo. Então jogar é sobre interagir com regras e é interessante como o ser humano em um momento pode ser tão averso a regras, tão questionador, reclamar de que regras são arbitrárias e, em outro momento, ele mesmo criar um sistema com regras arbitrárias para serem seguidas por puro deleite.

 

                Neste contexto a primeira coisa que os jogos nos ensinam é que a regra não é, necessariamente, algo opressor que nos tira a liberdade e nos força a agir de forma contrária ao nosso desejo. Na verdade, neste mundo em que Deus nos criou para viver, regras são a garantia de que podemos ter uma vivência plena do que o Criador nos deu para experimentar. Nos jogos existem regras essenciais e mais rígidas e regras auxiliares e mais flexíveis. Por exemplo, é esperado que algumas regras sejam cobradas de forma mais rígidas na Copa do Mundo do que em uma “pelada” entre amigos, mas existem regras - como quem marcar mais gols vence - que se esperam ser cobradas da mesma forma. Afinal, se futebol fosse um esporte sobre quem bate mais escanteio, o jogo e as estratégias seriam todas diferentes. O ponto disto é entender que as regras são sim importantes, mas elas cumprem um papel e devem ser seguidas a medida que elas conseguem cumpri-lo. Assim deve ser nosso relacionamento com a lei e não observar este princípio foi o erro dos antigos mestres da lei.

 

                Existem jogos em que há regras de punição para quando se infrigem outras regras, como o sistema de cartões e expulsões do futebol. Mas o intuito destas regras não é punir, é a expectativa de que a possibilidade de punição permita que todos possam experienciar um jogo mais limpo e justo. A punição aqui não está como forma de opressão e sim como um mecanismo para que o jogo seja melhor aproveitado. Além disso, a correção revela o senso de justiça de quem quer que tenha pensado o jogo e previsto que os jogadores poderiam, intencionalmente ou não, violar as regras. Entender na sub-criação que todo tipo de regra é importante nos permite olhar para o mundo a nossa volta e contemplar a grandeza, beleza e justiça deste Deus que se revela também em regras: o Deus que determinou o caminho da Terra em torno do Sol, o Deus que determinou como cada estrela deveria brilhar e o Deus que determinou as habilidades e competências dos homens e como eles deveriam utilizá-las para viver a vida de forma plena.

 

                Neste mundo existem regras que regem o próprio funcionamento do universo. Cientistas vão chamá-las de leis. A lei da gravidade, por exemplo, rege a atração entre os corpos. Se ela fosse de outra forma, ou se na verdade ela determinasse que não existe atração entre os corpos, o universo seria totalmente diferente - provavelmente um caos -, a Terra nem giraria em torno do Sol, consegue pensar nisto? Mas esta mesma lei que permite que o universo tenha ordem vai determinar que, caso você se descuide dela, você irá cair e dependendo da altura se machucar bastante. Assim como nas regras de um jogo as leis físicas não são más, elas cumprem um papel na Criação e, na verdade, ainda que o mundo todo tenha sido afetado pela queda do homem, o universo e suas leis apontam para Deus e para sua glória, de forma que ao se contemplar o universo e tudo o que o rege o sentimento não é, ou não deveria ser, de opressão, mas sim de gratidão, pois Ele criou um mundo onde poderíamos viver e nos deleitar nEle.

 

                Os seres humanos como sub-criadores não criam apenas regras para os jogos, mas também para suas organizações em sociedade. O relacionamento com Deus e o entendimento dessa realidade vai nos permitir entender essas regras, ser submisso quando elas cumprem o propósito de permitir uma vida melhor aos membros desta sociedade e de se posicionar contrário quando elas vão de encontro à a forma como Deus revelou que deveríamos viver. Você já pensou que jogar poderia revelar tanto sobre Deus, o homem e a sociedade? Os tipos de jogos que nos interessam revelam muito sobre a gente, o que consideramos importante, nosso desejo de ver belas jogadas, se somos pessoas que gostam de ter o controle de regras detalhadas e complexas de um jogo de estratégia, ou pessoas que preferem a aventura de depender da sorte num jogo de azar… Da próxima vez que escolher um jogo, tente ver o que de você é revelado na forma como você o joga, pode ser um experimento interessante.

 

                Agora falando um pouco da criação, do mundo em que nós vivemos, Deus o criou perfeitamente, cada regra com seu propósito e nos revelou, sejam regras mecânicas, ou regras morais que nos permitiriam satisfazer-nos completamente nEle e aproveitar o mundo. Deus sendo justo e conhecendo o coração do homem criou também regras para nos corrigir e disciplinar: “O salário do pecado é a morte”. Aqui não falamos apenas de morte física, mas do total afastamento de Deus e, novamente, isto não é uma opressão, mas justiça. Aqueles que não buscaram se satisfazer em Deus vão ser eternamente insatisfeitos longe dEle, e ser entregues aos seus próprios desejos rebeldes é a manifestação da ira divina sobre todo aquele que perverteu o propósito da Criação. Porém, esta regra não tem efeito imediato: Deus, rico em misericórdia, estabeleceu um tempo antes que o efeito total desta morte fosse experienciado, por isso ainda aproveitamos algo da vida. Todos nós pecamos, o que significa que todos nós nos dispusemos a viver de forma insatisfeita. Ainda que percebamos que não estamos vivendo conforme deveríamos, já não mais temos a capacidade de voltar a cumprir as regras e nos relacionar plenamente com Ele. Estamos cada vez mais entregues aos nossos próprios desejos e nossa própria insatisfação.

 

                Ciente da condição humana, Deus, abundando em graça, decidiu criar um caminho para que o ser humano pudesse voltar a experienciar a Criação e o relacionamento com Ele da forma como deveria, conforme as regras criadas. Suas regras são boas e perfeitas, então Ele não violaria nenhuma delas. Por isso, Ele de si mesmo enviou o seu Filho amado, aquele que eternamente se relacionou perfeitamente com o Pai. O Filho, sendo Deus,  um com o Criador do jogo, não se apegou a isso. Ele tomou a forma de homem, se tornou um dos jogadores, seguiu perfeitamente cada regra, e no fim cumpriu a regra que nós iríamos cumprir, Ele morreu. O Filho não morreu porque havia transgredido alguma regra, mas por amor e em obediência ao Pai que lhe enviou, morreu para que nEle tivéssemos um caminho, o único, de volta ao Pai.

 

                O mais impressionante é que depois, ao terceiro dia, Ele ressuscitou, o Filho triunfou sobre a morte e sobre o pecado. Nele existe uma nova regra de acesso ao Pai, não mais pelas nossas capacidades de cumprir as outras regras, mas pela fé, ao acreditar que estávamos sim caminhando em direção a morte. Que a nossa condenação era justa, mas que Deus em Cristo nos amou e nos salvou e nós podemos voltar a nos relacionar com o Pai pelo mérito de Cristo. A prova disto é o Espirito Santo, um com Deus, enviado por Cristo, para viver em nós. É o Espirito que nos capacita a novamente seguir as regras e a caminhar o caminho, que é Cristo, em direção ao Pai. Estas três pessoas são um único Deus e se relacionaram perfeitamente desde o princípio, e nos chamam por meio de toda a Criação a participar desse relacionamento. Mas e aí, como está o jogo? Você o está aproveitando de verdade? Está jogando como deveria?

 

 

 

 

 

Edrysson Rocha

Seguidor de Jesus, formado engenharia mecatrônica, interessado em jogos eletrônicos, ator nas horas vagas e facinado pela graça de Cristo e viver ela com outras pessoas.

 

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