Terceirizando a culpa

11/26/2018

 

Quem nunca, para acalmar um pouco a alma, terceirizou a culpa?
Desde Adão até os dias de hoje, o erro, o pecado e a omissão têm sido seguidos de terceirização da culpa. No jardim do Éden, Deus dá uma simples instrução a Adão: 

E o SENHOR Deus ordenou ao homem: “Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá”. (Gn. 2:16 e 17)

Entretanto, após a queda e, sendo questionado Adão, este aponta a mulher. A mulher, ao ser questionada, aponta a serpente. A serpente, coitada, não apontou ninguém. De qualquer forma, foi a primeira a receber sua sentença:

Então o Senhor Deus declarou à serpente: “Uma vez que você fez isso, maldita é você entre todos os rebanhos domésticos e entre todos os animais selvagens! Sobre o seu ventre você rastejará, e pó comerá todos os dias da sua vida”. (Gn 3:14)

Imagino, nesse momento, o alívio que deve ter tomado o coração de Adão e de Eva, pensando que haviam se livrado da consequência de seu erro. E não é esse o pensamento que nos ocorre, o de que, apontando culpados, nos livraremos daquela parte que nos cabe? A dor do erro é tamanha que acreditamos em poder aliviá-la através dessa terceirização. Nós nos esquecemos de que Ele conhece profundamente nosso coração, e não podemos enganá-Lo ou ludibriá-Lo. 
Mesmo assim, sabendo de Sua onisciência, nossa reparação (ou pseudorreparação) é permeada por justificativas e porquês, enquanto o pedido de perdão deve, necessariamente, consistir nele mesmo.
Obviamente que o pedido de perdão deve vir acompanhado de sinceridade, exposição de si, de seus medos, angústias e dores. Mas expor-se não é sinônimo de justificar-se. A justificativa apaga a beleza do arrependimento (ou será remorso?).
A terceirização da culpa anula o sentido do perdão. Por que pedir perdão se a culpa do meu erro não é minha? Por que tentar me retratar se quem infringiu não fui eu, e, sim, "meu temperamento", "meu defeito de caráter", "minha falta de tempo", "meus amigos", "meu chefe que me solicitou cometer uma fraude", "meus líderes", "meus pais", "meu namorado", “minha namorada”, "a igreja"?  

 

O que Nárnia tem a ensinar 
Nesses momentos, sou tentada a lembrar-me de Aslam em "O cavalo e seu menino", que apareceu a Shasta e, conversando com ele, lhe revelou:

– Fui eu o leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui eu o gato que o consolou na casa dos mortos. Fui eu o leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui eu o leão que empurrou para a praia a canoa em que você dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia-noite, o acolhesse. (LEWIS, 1954)

Aslam respondeu ao menino questionamentos que o acompanhavam por um bom tempo. Mas Shasta, não satisfeito, quis saber por que alguém que lhe foi tão bom havia sido mau com sua amiga Aravis:

– Então foi você que machucou Aravis? 
– Fui eu. 
– Mas por quê?! 
– Filho! Estou contando a sua história, não a dela. A cada um só conto a história que lhe pertence. (LEWIS, 1954)

 Apesar de estarmos sempre buscando culpados, justificando nossas ações e apontando o erro dos outros, nossa história é nossa, e não dos outros. Mesmo que, ao longo da caminhada, nos deparemos com pessoas que nos machuquem, influenciem negativamente e nos façam mal, o que nos cabe é responder contrariamente à natureza dessa ferida, influência negativa e maldade. Afinal, é a partir do veneno que se produz o antídoto. E prestaremos conta da parte da história que nos pertence. Diz respeito a nós. Diz respeito a como, em face de tudo isso, respondemos.
Os meus erros, as minhas falhas, a minha imaturidade, impetuosidade, precipitação e pecaminosidade fazem parte da minha história. Com certeza, esses têm repercussão na vida de outros, porém dizem respeito a mim, e por eles sou responsável.
Através da Graça, fomos libertos da escravidão do pecado e passamos a ser escravos da justiça (Rm 6:18). Cristo nos libertou para que sejamos, de fato, livres (Gl 5:1a). Somos livres para agir e fazer o bem ou o mal. Livres para viver, para sobreviver. Mas, com toda essa liberdade, somos responsáveis.
Que valorizemos a Graça. Que não usemos dessa liberdade para deixar que a natureza humana nos domine (Gl 5:13), fazendo-nos escravos do pecado novamente (Gl 5:1b). Que, diante dos erros e pecados que cometemos – e cometeremos –, possamos nos lembrar de que o arrependimento, e não a terceirização da culpa, é o antídoto para o pecado (Pv 28:13). Afinal, onde aumenta o pecado, a Graça transborda (Rm 5:20).
Que a responsabilidade de agir como agimos, falar como falamos, andar como andamos e ser quem somos recaia sobre nós mesmos, porque só assim poderemos, em Cristo, ser melhores do que já somos. Só assim poderemos n’Ele ser refeitos.

 

 

 

 

Raquel Lourenço, 22 anos, psicóloga em formação, brasiliense com um pé na Bahia. Amante das artes, casada com a música e dançando com a vida. Eternamente apaixonada pelo Eterno e pela Eternidade.

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